segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Oecusse



E é já com pouco mais de vinte anos, no último ano da minha formação universitária básica, que sofro a chamada descolonização exemplar, quando arreamos apressadamente a nossa bandeira das plagas africanas e, mais longe, na Ribeira de Timor, enclausuramos os restos do aparelho de poder de Lemos Pires, na ilhota de Ataúro. Quando, de forma egoística, abandonamos muitos povos a quem tínhamos prometido a construção conjunta de uma nova comunidade, gerando um vazio estratégico, depressa ocupado por anteriores poderes erráticos, subordinados a grandes potências, ou a interesses ocultos da economia internacional, muitos sem amor àquelas terras e àquelas gentes, onde, apesar de tudo, acabarão por ressurgir as forças anímicas federadoras de enraizadas libertações nacionais e se recomeçaram os universais sonhos de independência. Ter opiniões é estar vendido a si mesmo. Não ter opiniões é existir. Ter todas as opiniões é ser poeta[1].




[1] Fernando Pessoa, Livro do Desassossego de Bernardo Soares, Vol. I. (organização e fixação de inéditos de Teresa Sobral Cunha), Lisboa, Presença, 1990, p. 232.